Escravidão contemporânea

Não existem mais senzalas, algemas e troncos, porém, 125 anos após a assinatura da Lei Áurea, a escravidão continua em nosso País. Estima-se que 29 milhões de pessoas em todo o mundo vivem nesta situação, sendo que a Ásia é a região predominante, especialmente pelo seu regime de governo. As pessoas que convivem em situações de escravidão são frágeis, iludidas, sonham por melhores condições de vida, salários, moradia, muitas vezes se sujeitam a este tipo de trabalho, ou são obrigadas, para pagarem dividas feitas pela família.

Vivemos em uma das regiões mais prósperas do país, porém, a “escravidão” está entre nós. Péssimas condições de trabalho, alojamentos sem higiene, banheiros, camas ou armários, enfim trabalhadores vivendo em condições sub-humanas. Antigamente isso ocorria muito no campo, em função da sazonalidade da lavoura. Pessoas vinham para o sudeste, na safra, principalmente para colheita de cana e café, mas hoje, o perfil das pessoas em situações análogas a da escravidão mudou e muito.

Este ano, em São Paulo, universitários e até mesmo pessoas bilíngues foram libertados. O aquecimento da construção civil, também gerou uma nova onda de trabalhadores, que vivem em condições do “trabalho escravo moderno”. Inicialmente, firmam um contrato com direito a salário, alojamento, refeições e outros benefícios e, ao assinarem o contrato, entregam os documentos e carteira de trabalho. Mas, ao chegarem ao local de trabalho o cenário é diferente. Falta de registro, longas jornadas, promessas de trabalho não cumpridas, assédio sexual, além de cerceamento da liberdade no período da noite, quando os alojamentos são mantidos trancados, são as realidades enfrentadas. Sem contar que, ao final do mês são descontadas as despesas com a viagem ao local, estadia e refeição. Enfim nada recebem, não têm como sair, não sabem o que fazer e nem para onde ir.

Há uma força tarefa envolvendo a sociedade civil organizada através dos Sindicatos, Ministério do Trabalho, Ministério Público Federal, com apoio da polícia civil. As empresas flagradas em situações caracterizadas como escravidão têm seus nomes inclusos na “lista suja”, ficando suspensos financiamento e acessos a crédito.

É preciso que isto termine e a população pode fazer sua parte ao denunciar as situações precárias de trabalhadores, não comprarem produtos das empresas “sujas” ou ainda não adquirirem mercadorias de procedência duvidosa.

MÁRCIA RAMAZZINI é engenheira do Trabalho e Meio Ambiente, mestre em Saúde Ocupacional pela Unicamp e especialista em Segurança e Saúde na Construção Civil e Indústria

Comments are closed